Pecege projeta moagem de 629,5 milhões de toneladas de cana no Centro-Sul, com 31,6 milhões de toneladas bisadas
A moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil deverá alcançar 629,5 milhões de toneladas na safra 2026/27, crescimento de 3% em relação aos 611,2 milhões de toneladas do ciclo anterior.
A projeção consta no Radar Compara, relatório de outubro da Pecege Consultoria e Projetos, que estima ainda que aproximadamente 31,6 milhões de toneladas de cana permaneçam nos canaviais para a próxima temporada.
Apesar do avanço esperado no processamento, a consultoria prevê redução de 6% na produção de açúcar e queda de 9,5% no preço médio do Açúcar Total Recuperável (ATR), pelo Consecana-SP, refletindo um cenário de preços menos favoráveis para os produtos do setor.
Segundo o levantamento, o potencial de moagem da safra atual é estimado em 661,1 milhões de toneladas, considerando a área disponível e a produtividade agrícola projetada. Entretanto, as limitações operacionais e a quantidade de cana que deverá permanecer sem colheita reduzem a expectativa de processamento efetivo para 629,5 milhões de toneladas.
Até a primeira quinzena de setembro, o Centro-Sul havia processado 443,7 milhões de toneladas, ante 451,1 milhões de toneladas no mesmo período da safra anterior. A moagem acumulada, que vinha superando os resultados do ciclo passado, passou a registrar uma diferença negativa de 7,4 milhões de toneladas.
As condições climáticas estão entre os fatores de atenção. De acordo com o Pecege, o volume acumulado de chuvas durante o período de colheita chegou a 419 milímetros, 83% acima da média histórica considerada no levantamento e 80% superior ao registrado no período equivalente da safra anterior. O aumento das precipitações restringe as janelas disponíveis para as atividades agrícolas.
Para os próximos meses, a consultoria estima um potencial de moagem adicional de 168,9 milhões de toneladas até dezembro, além de aproximadamente 16,9 milhões de toneladas entre janeiro e março, considerando o retorno antecipado das operações após a entressafra.
O volume de cana bisada, estimado em 31,6 milhões de toneladas, também será determinante para o resultado da temporada. A quantidade representa a parcela da matéria-prima disponível que deverá permanecer no campo para colheita no ciclo seguinte.
Produtividade melhora, mas qualidade da cana recua
A projeção de maior moagem em 2026/27 é sustentada principalmente pela recuperação da produtividade agrícola. Segundo o Pecege, o rendimento médio deverá passar de 74,43 toneladas por hectare para 80,10 t/ha, crescimento de 7,62%.
Em contrapartida, a área colhida está estimada em 7,86 milhões de hectares, redução de 4,29% em relação à safra anterior.
A qualidade da matéria-prima deverá apresentar desempenho inferior. O ATR médio está projetado em 134,53 quilos por tonelada de cana, queda de 2,36% frente aos 137,79 kg/t registrados em 2025/26.
Mesmo com essa redução, o volume total de ATR deverá apresentar ligeiro aumento, passando de 84,21 milhões para 84,69 milhões de toneladas.
Para a safra 2027/28, a consultoria prevê nova expansão da moagem, para 643,3 milhões de toneladas, crescimento de 2,2%. A projeção considera uma produtividade média de 77,80 t/ha, inferior à estimada para o ciclo atual, mas compensada pela ampliação da área colhida para aproximadamente 8,27 milhões de hectares.
Produção de açúcar deve cair 6%, enquanto etanol ganha participação
Apesar do aumento previsto na moagem, a produção de açúcar do Centro-Sul deverá recuar de 40,43 milhões para 37,99 milhões de toneladas na safra 2026/27, queda de 6,04%, segundo as estimativas do Pecege.
A redução está relacionada ao menor ATR médio e à diminuição da participação do açúcar no mix produtivo. A consultoria projeta que 47,07% do ATR seja destinado à fabricação do adoçante, ante 50,38% na temporada anterior, uma redução de 3,31 pontos percentuais.
Em contrapartida, a participação do etanol deverá avançar de 49,62% para 52,93%. Com isso, a produção do biocombustível a partir da cana está estimada em 26,33 bilhões de litros, crescimento de 7,32% em relação aos 24,53 bilhões de litros do ciclo passado.
Desse volume, 9,76 bilhões de litros deverão corresponder ao etanol anidro e 16,57 bilhões ao hidratado, com aumentos de 4,78% e 8,88%, respectivamente.
Para 2027/28, a expectativa é de recuperação da fabricação de açúcar, que poderá alcançar 40,92 milhões de toneladas, aumento de 7,73%. O Pecege também projeta crescimento da produção de etanol de cana para 26,80 bilhões de litros.
Preço do ATR pode cair 9,5% na safra 2026/27
O cenário de preços dos produtos sucroenergéticos deverá pressionar a remuneração da cana-de-açúcar na temporada atual.
Segundo o Pecege, o preço médio do ATR pelo Consecana-SP está projetado em R$ 0,9790 por quilo na safra 2026/27, queda de 9,5% em relação aos R$ 1,0816/kg do ciclo anterior.
No mercado de açúcar, a consultoria estima preço médio de R$ 83,20 por saca de 50 quilos para o VHP em São Paulo, redução de 10,7%. Para o açúcar cristal, a projeção é de R$ 103,93 por saca, recuo de 6,8%.
No etanol, os preços médios também deverão ficar abaixo dos registrados na temporada passada. A estimativa é de R$ 2,78 por litro para o anidro, queda de 11,2%, enquanto o hidratado deverá apresentar média de R$ 2,54/L, redução de 8,9%.
As projeções contrastam com a expectativa de valorização do açúcar bruto na bolsa de Nova York. Para a safra 2026/27, o Pecege trabalha com preço médio de 16,98 centavos de dólar por libra-peso, alta de 7,7% em relação ao ciclo anterior. Entretanto, a taxa média de câmbio projetada recua de R$ 5,44 para R$ 5,09 por dólar.
Para 2027/28, a consultoria prevê recuperação de 7,9% no valor do ATR, para R$ 1,0558/kg. A estimativa considera, entre outros indicadores, preços médios de R$ 96,68 por saca para o açúcar VHP e R$ 115,26 para o cristal.
Mercado mundial de açúcar deve voltar a registrar superávit
No cenário internacional, o Pecege projeta uma mudança no balanço de oferta e demanda de açúcar. Após um déficit estimado de 1,39 milhão de toneladas na safra internacional 2025/26, a consultoria prevê superávit de 1,21 milhão de toneladas em 2026/27.
A produção mundial está estimada em 181,74 milhões de toneladas, diante de um consumo de 180,54 milhões de toneladas. A recuperação da produção brasileira é um dos fatores considerados no levantamento.
Para o Brasil, incluindo Centro-Sul e Norte-Nordeste, a projeção é de 44,69 milhões de toneladas de açúcar na safra internacional 2026/27, ante 38,97 milhões de toneladas na temporada anterior.
Por outro lado, a consultoria prevê retração da oferta em importantes origens. A produção conjunta da União Europeia e do Reino Unido deverá cair de 17,19 milhões para 14,48 milhões de toneladas. Na Tailândia, a redução estimada é de 11,25 milhões para 9,5 milhões de toneladas.
Na Índia, a expectativa é de crescimento da produção de 27,9 milhões para 29,2 milhões de toneladas. As projeções mostram que, apesar das perdas esperadas em alguns países produtores, o Pecege trabalha com um cenário de oferta global ligeiramente superior ao consumo na próxima temporada internacional.
No mercado brasileiro de combustíveis, a consultoria também projeta manutenção da competitividade do etanol hidratado em São Paulo. O preço médio na bomba está estimado em R$ 4,03 por litro na safra 2026/27, ante R$ 4,17 no ciclo anterior. A paridade em relação à gasolina deverá recuar de 68,01% para 63,23%.
Para 2027/28, o Pecege projeta estabilidade no preço médio do etanol hidratado nas usinas, estimado em R$ 2,54/L, enquanto a paridade em relação à gasolina nos postos paulistas deverá subir para 64,71%.
As perspectivas da consultoria para a próxima temporada apontam para uma recuperação da moagem e da produção de açúcar no Centro-Sul, acompanhada de uma melhora no preço do ATR. A concretização desse cenário, entretanto, segundo o Pecege, dependerá das condições climáticas, do desempenho agrícola dos canaviais e do comportamento dos preços do açúcar e do etanol.
Natália Cherubin
Via Novacana
Imagem - Pensar Agro

