Produtividade do agro exige estabilidade institucional e políticas coerentes
Arnaldo Jardim afirma que falhas em política pública, crédito e comércio exterior podem anular ganhos do setor
Os avanços obtidos pelo agronegócio brasileiro em produtividade, eficiência e inovação dependem de um ambiente institucional estável e de políticas públicas coerentes. Essa foi a principal mensagem da palestra magna “Desafios e oportunidades do Agro Brasileiro”, apresentada pelo deputado federal Arnaldo Jardim durante o IX Seminário GMEC, realizado no final de novembro, em Ribeirão Preto - SP.
Diante de um público formado majoritariamente por representantes de usinas e empresas do setor sucroenergético, Jardim afirmou que o esforço cotidiano feito dentro das operações industriais e agrícolas pode ser rapidamente comprometido quando decisões externas ao setor não acompanham essa trajetória. Segundo ele, a busca permanente por maior produtividade, eficiência e eficácia ocorre de forma gradual, mas pode ser perdida de uma só vez quando há falhas na condução da política econômica, energética ou comercial. “Aquilo que é construído gota a gota pode ser perdido quando alguém chuta o balde”, afirmou, ao relacionar a realidade das usinas com decisões tomadas fora do ambiente produtivo.
O deputado destacou que dificuldades na inserção do açúcar brasileiro no mercado internacional, restrições ao crédito e ausência de uma política consistente para o etanol têm impacto direto sobre a sobrevivência do setor. Para ele, problemas de financiamento e incertezas regulatórias afetam tanto as decisões de curto prazo quanto os investimentos estruturais necessários para a manutenção do Opex e a expansão do Capex das empresas.
Ao traçar um panorama da evolução do setor, Jardim lembrou que a cadeia sucroenergética deixou de ser apenas açúcar, incorporou o etanol, avançou para a bioeletricidade e agora passa a incluir o biometano como vetor estratégico. Segundo ele, essa diversificação abre espaço para ampliar a geração de CBios, reduzir emissões e até substituir parte do diesel consumido pelas próprias unidades produtivas. O parlamentar citou o avanço de fabricantes de máquinas e equipamentos que já desenvolvem tratores, colheitadeiras e veículos adaptados ao uso de combustíveis renováveis, reforçando a integração entre inovação tecnológica e transição energética.
No campo político, Jardim ressaltou a atuação da Frente Parlamentar da Agropecuária no Congresso Nacional, da qual é coordenador na Câmara dos Deputados. Ele afirmou que 2025 foi marcado por momentos de forte tensão para o setor, especialmente durante o debate da reforma tributária, quando ganhou força a narrativa de que o agro seria pouco tributado. Segundo o deputado, essa visão desconsidera a complexidade da cadeia produtiva e o peso da carga tributária ao longo de todo o sistema, o que exigiu intensa articulação para evitar impactos negativos ao setor.
Outro ponto sensível citado foi o Plano Safra, considerado insuficiente para atender às necessidades de investimento do agro brasileiro. Jardim destacou que, apesar dos esforços de negociação, o volume de recursos anunciado não acompanhou o dinamismo do setor mais competitivo da economia nacional. Já no caso do seguro rural, o parlamentar reconheceu que não foi possível avançar como o necessário, classificando o tema como um dos principais desafios para o próximo ano.
O deputado também abordou questões estruturais relacionadas ao uso do território nacional. Ele lembrou que o Brasil possui cerca de 850 milhões de hectares, dos quais aproximadamente 87 milhões são ocupados por áreas agrícolas, o equivalente a cerca de 10% do território. Para Jardim, esse dado reforça que o agro brasileiro combina escala produtiva com preservação ambiental, argumento central nas discussões internacionais.
Ao comentar a agenda ambiental, o parlamentar afirmou que o país conseguiu reposicionar o agronegócio como parte da solução climática, especialmente no contexto das discussões preparatórias para a COP. Segundo ele, o Brasil demonstrou, com base científica, que é possível ampliar a produção de biocombustíveis sem comprometer a segurança alimentar. Jardim destacou estudos técnicos apresentados em fóruns internacionais que sustentam a convivência entre aumento da oferta de etanol, expansão de combustíveis sustentáveis de aviação e manutenção da produção de alimentos.
Para o deputado, o Código Florestal brasileiro é um dos instrumentos mais avançados do mundo e, se adotado em outros países, teria impacto relevante na redução global das emissões de gases de efeito estufa. Ele também defendeu o reconhecimento internacional dos créditos de carbono gerados no campo, argumentando que o agro brasileiro tem capacidade não apenas de reduzir emissões, mas também de sequestrar carbono.
Ao encerrar sua participação, Jardim afirmou sair confiante no futuro do setor e no papel do Brasil como referência global em agricultura tropical. Ele destacou a adoção de tecnologias como inteligência artificial, internet das coisas e drones no campo e reforçou que o agro brasileiro reúne inovação, sustentabilidade e competitividade. Segundo o deputado, a combinação entre esforço produtivo e atuação política será determinante para que o setor continue exercendo seu papel como motor do crescimento econômico do país.
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Por Andréia Vital
Canaonline

