“Deveremos ter uma safra global de açúcar superavitária em 2025/26”, diz Pedro Mizutani, da Czarnikow
Há dois anos, o açúcar estava em um de seus maiores picos de preço, ficando acima de 25 centavos por libra-peso no mercado internacional. Os produtores brasileiros, cientes da grande valorização do adoçante, começaram a investir em capacidade de cristalização e até mesmo empresas que atuavam apenas como destilarias realocaram recursos para construir fábricas da commodity.
Desta forma, o Centro-Sul brasileiro alcançou grandes volumes na produção de açúcar, com 42,43 milhões de toneladas em 2023/24 e 40,17 milhões de toneladas em 2024/25. E a tendência é manter uma forte fabricação do adoçante, considerando que muitas sucroenergéticas têm contratos a cumprir.
O momento de glória da commodity, entretanto, parece ter se dissolvido. Desde o final de 2024, os preços despencaram e, nos últimos meses, estão em torno de 16 centavos de dólar por libra-peso.
Vários fatores levaram a essa retração. Um deles é justamente o volume vindo de grandes produtores. A Índia espera exportar mais açúcar e a Tailândia tem uma projeção de recuperação depois de quebras de safra, alcançando uma máxima de sete anos.
Mas, no Brasil, ainda há outra variável: a entrada em vigor do aumento da mistura do etanol anidro à gasolina, para 30% (E30). A medida busca incentivar o consumo do biocombustível e, possivelmente, melhorar os preços. As usinas não comprometidas com o açúcar, dessa forma, poderão migrar o seu mix de produção para oferecer mais biocombustível.
Com tantas oscilações e fatores a serem analisados, o mercado de açúcar tem espaço reservado na Conferência NovaCana 2025. O evento acontecerá em São Paulo (SP) nos dias 15 e 16 de setembro.
Um dos palestrantes do painel “Mercado de açúcar: visões de preços, balanço global e planejamento frente a desafios” será o diretor da Czarnikow, Pedro Mizutani. Ao lado dele estarão a gerente sênior de inteligência de mercado da BP Bioenergy, Luciana Torrezan; o líder de açúcar para Américas da ED&F Man, Rodrigo Ostanello; e o trader sênior da Sucden, Ulysses Carvalho.
A programação completa da Conferência NovaCana 2025 já está disponível. Inscreva-se e garanta seu lugar.
Mizutani é formado em engenharia naval pela escola politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e atua na Czarnikow desde 2012. Já ocupou posições nas áreas de trading e gestão de açúcar bruto.
O NovaCana conversou com Mizutani, que trouxe as principais visões para o curto e longo prazos do mercado internacional de açúcar. A seguir, confira a entrevista completa:
Considerando que os preços do açúcar estão pressionados, é possível que as usinas acabem priorizando o etanol?
Sim. As usinas de fronteira – como Mato Grosso do Sul e Goiás – geralmente têm um incentivo fiscal, e o frete para levar o produto até o porto de Santos (SP) é muito caro. Para essas usinas, já faz sentido fazer etanol. Porém, o preço dele caiu bastante também, então, até faz sentido fabricar o biocombustível, mas se a usina já tiver um contrato com a trading, vai depender dos custos do washout. Alguma parte já foi “washoutada”, já foi cancelada. Mas grande parte ainda não. Por isso, vemos um mix [voltado para o açúcar] ainda muito forte quinzena a quinzena.
“Você já poderia transformar açúcar em etanol pelos preços atuais, mas o mix ainda está forte para o adoçante porque as usinas, principalmente as novas, têm contratos do adoçante”, Pedro Mizutani (Czarnikow)
Como o E30, que já entrou em vigor, vai afetar este cenário? As usinas terão mais uma justificativa para trocar o mix produtivo ou o etanol de milho deve suprir a demanda?
O E30 é algo muito importante para o setor, pois aumenta significativamente a demanda pelo anidro. Mas acredito que essa demanda seja muito mais suprida pelo etanol de milho porque, no final das contas, as usinas [de cana] já têm esse compromisso de produzir açúcar. Hoje, o anidro paga mais do que o açúcar, mas, mesmo assim, é preciso muito mais energia para produzir anidro, demanda mais matéria-prima. E, para isso, você também deveria diminuir a fabricação de açúcar. Então, nesta safra, o E30 deve ser suprido muito mais pelo etanol de milho e, também, pelos estoques do ano passado.
Devido aos bons preços dos últimos anos, várias usinas investiram em aumento de capacidade de cristalização. Com a queda dos preços, esse movimento tende a apresentar uma desaceleração?
Quando as usinas investiram em novas fábricas de açúcar, a maioria delas já fez hedge de entre dois e três anos para frente, para ter uma receita garantida. Mas, agora, uma fábrica de açúcar não é mais viável. A maioria das usinas do estado de São Paulo já fabricam adoçante. As que investiram eram principalmente destilarias dos estados de fronteira. Hoje, não faz mais sentido para elas alocarem recursos para produzir mais açúcar. Então, vai ocorrer uma diminuição nesses investimentos. Além disso, os juros aumentaram bastante. Acho que não teremos novas fábricas de açúcar, a não ser aquelas que já estão em processos adiantados.
“O açúcar é um produto necessário. Independente do preço, as pessoas vão continuar comprando para o consumo próprio”, Pedro Mizutani (Czarnikow)
Os Estados Unidos taxaram a importação de produtos brasileiros em 50%. Qual será o impacto para o açúcar?
Isso tudo ainda é muito novo, talvez possamos ver os efeitos em um período mais próximo da Conferência NovaCana. Mas, entre os produtos de açúcar que entram nos Estados Unidos, os principais vêm do Nordeste – que tem uma cota para o mercado americano, algo próximo de 150 mil toneladas por ano – ou é açúcar orgânico. De onde os EUA vão comprar, se não do Brasil? Então, eles devem continuar adquirindo, mas vão pagar mais caro a não ser que encontrem alternativas. Com essas mudanças todas pode ser que até outubro, que é quando geralmente ocorrem os embarques para os Estados Unidos, eles encontrem uma solução mais viável. Mas ainda não há uma definição sobre isso.
E em relação ao açúcar orgânico, cujo maior cliente é os EUA: como deve ficar o mercado caso as tarifas continuem em vigor?
Para o açúcar orgânico, o nosso mercado é o americano, no fim das contas. São eles que pagam bem por este produto e devem continuar comprando, mas as margens devem diminuir bastante.
Quais são as perspectivas de preço para a safra global de açúcar 2025/26?
Nós trabalhamos com uma faixa aqui; achamos que o preço ficará entre 16 e 19 centavos de dólar por libra-peso. Com o menor valor, você acaba mudando o mix, depende do preço do etanol. Mas, neste nível, é provável que mais usinas produzam o biocombustível. Já a 19 centavos de dólar por libra-peso, todo mundo faz açúcar. Assim, não pode subir tanto, senão tem muito mais adoçante de novo. Deve ficar nesta média, mas depende também do câmbio.
O mercado espera uma boa safra na Tailândia e que a Índia possa exportar uma nova cota até o final da temporada. A área de beterraba da Europa, por outro lado, caiu. Como esses fatores podem afetar os preços internacionais em curto e longo prazos?
Acho que esses dados já estão afetando o preço internacional. Na Tailândia, estamos aumentando 1 milhão de toneladas de uma safra para outra. A Índia está com um incremento de 4 a 5 milhões de toneladas também de uma safra para outra. No caso da Europa, está diminuindo 500 mil toneladas. E, para o Centro-Sul do Brasil, estamos esperando uma queda de praticamente 1 milhão de toneladas. Com isso, resultamos em uma próxima safra superavitária. Toda vez que temos uma safra superavitária, vemos essa pressão nos preços.
“Choveu bem na entressafra brasileira e esperamos que a cana do próximo ano seja boa. Mas estamos vendo boas temporadas também na Índia e na Tailândia. Isso tem pressionado o preço para baixo”, Pedro Mizutani (Czarnikow)
Considerando este contexto global, não devemos ver os preços voltarem ao patamar de 25 centavos de dólar por libra-peso, então?
Eu acho bem difícil de isso acontecer agora. Principalmente porque instalamos muita capacidade adicional de produção de açúcar aqui no Centro-Sul. E, agora, você tem safras indo bem no Hemisfério Norte. Safras boas no Hemisfério Norte, safras boas no Centro-Sul do Brasil, tudo convergindo ao mesmo tempo. Mesmo que a produção brasileira fique abaixo do ano passado e do anterior, com cerca de 39,1 milhões de toneladas nesta safra, ainda assim é um volume muito grande. Ainda temos esse período a percorrer, tudo vai depender do consumo. Se continuar aumentando ano a ano e a produção estagnar, podemos ver novamente preços altos, mas só daqui a algum tempo.
Podemos esperar um superávit para a temporada 2024/25? E qual é o cenário para a safra global 2025/26?
Para a temporada 2025/26, podemos esperar sim um superávit de 4 milhões de toneladas. Agora, para 2024/25, contamos que houve um déficit de 1,5 milhão de toneladas.
Houve uma diferença bem grande, entre uma safra e outra.
Bem grande. Essa é nossa visão que justifica a queda do preço, porque voltamos a aumentar os estoques.
Do lado da demanda, como está aumentando o consumo global de açúcar? O que podemos esperar para esta e para a próxima temporada?
O consumo aumenta conforme o crescimento populacional e à medida em que as pessoas vão cada vez mais para as cidades, onde consomem cada vez mais. Aquela regrinha básica, de que o consumo cresce na média de 1% ao ano, acho que está bem justa.
Considerando o cenário global, como fica o momento atual para as sucroenergéticas?
Até setembro, quando vai acontecer a Conferência NovaCana, talvez muita coisa mude. Nesse ponto de 16 centavos de dólar por libra-peso, achamos que o preço está muito baixo. Você não vê novos investimentos em fábricas de açúcar, não vê tantos recursos alocados para melhorias do canavial. Assim, o trato vai ser diferente; os juros estão muito alto e as dificuldades vão aparecendo. Talvez tenha uma consolidação maior do setor. É um momento delicado e as usinas devem fazer o gerenciamento de risco delas. Elas devem precificar conforme o tempo vai passando, para aproveitar cada oportunidade que apareça. Esse ano surgiram boas oportunidades e, há alguns meses, conseguimos pegar bons preços. Se os Estados Unidos fizerem algo diferente, o câmbio vai para R$ 6, e essa seria a hora das usinas aproveitarem e precificarem.
Giully Regina – NovaCana


